Floresta Amazônica
A maioria dos
7 milhões de km2 da Floresta Amazônica é
constituída por uma floresta de terra firme. Esta
é uma floresta que nunca é alagada e se espalha
sobre uma grande planície de até 130-200 metros
de altitude, até os sopés das montanhas. A
grande planície corresponde aos sedimentos deixados
pelo lago "Belterra", que ocupou a maior parte
da bacia Amazônica durante o Mioceno e o Plioceno,
entre 25 mil e 1,8 milhão de anos atrás. O
silte e as argilas depositados neste antigo lago foram submetidos
a um suave movimento de elevação epirogenético,
enquanto os Andes se ergueram e os modernos rios começaram
a cavar os seus leitos. Assim surgiram os três tipos
de florestas amazônicas: as florestas montanhosas
Andinas, as florestas de terra firme e as florestas fluviais
alagadas, as duas últimas na Amazônia brasileira.

As flutuações
climáticas do Pleistoceno se manifestaram numa sucessão
repetida de climas frio-seco - quente-úmido - quente-seco.
A última fase fria-seca data de 18 mil a 12 mil anos
atrás, quando o clima da Amazônia era semi-árido,
com temperatura média rebaixada por até 5ºC.
Em seguida, houve o retorno do clima quente-úmido,
que chega ao máximo em torno de 7 mil anos atrás.
Desde então, e com várias oscilações
de menor porte, vivemos um clima relativamente quente-seco.
Muito importante foi o fato de que durante as fases semi-áridas,
a grande floresta de terra firme se encontrava dividida
e fragmentada por formações vegetais abertas,
do tipo cerrados, caatingas e campinaranas, todas melhor
adaptadas ao clima seco. A floresta sobrevivia em "refúgios",
situados nas áreas de solos mais altos e com melhor
abastecimento hídrico. Ao voltar o clima mais úmido,
a floresta expandiu-se novamente, em detrimento da vegetação
dos cerrados. Hoje em dia, o cerrado sobrevive em seus próprios
"refúgios", dentro da imensidade das matas
de terra firme. Este processo flutuante vai se repetir sem
dúvida, a não ser que o homem interfira na
situação.
A floresta de
terra firme tem inúmeras adaptações
à pobreza em nutrientes dos seus solos argilosos
e podzólicos. As árvores que a compõem
são capazes de se abastecer com nitratos através
de bactérias fixadoras de nitrogênio, que estão
ligadas às suas raízes. Além disso,
uma grande variedade de fungos também simbiontes
das raízes, chamados micorrizas, reciclam rapidamente
o material orgânico antes deste ser lixiviado. A serrapilheira
(formada por folhas e outros detritos vegetais que caem
ao solo) é reciclada rapidamente pela fauna rica
de insetos, especialmente besouros, formigas e cupins. Os
insetos constituem a maioria da biomassa animal na floresta
de terra firme.
Esta floresta,
especialmente rica em aráceas epífitas, é,
comparada à Mata Atlântica, relativamente pobre
em bromélias e orquídeas. Entre estas plantas
epífitas estão as mirmecófitas, plantas
que vivem em estreita simbiose com as formigas. No sub-bosque
da floresta destacam-se especialmente as palmeiras e os
cipós. As grandes samambaias são raras.
A macrofauna do chão da floresta é relativamente
pobre. Os vários sapos e pererecas ali encontrados
apresentam diversas adaptações para garantir
a água necessária para o desenvolvimento dos
girinos. Alguns grandes mamíferos, tais como as antas,
o cateto e a queixada, assim como os mutuns e os inhambus,
entre as aves do chão, merecem destaque. Perto do
chão da floresta encontram-se também muitas
aves "papa-formigas", que tiram proveito das enormes
migrações de formigas de correição.
A grande diversidade
animal encontra-se nas copas das árvores entre 30
e 50 metros de altura, um ambiente de difícil acesso
para o pesquisador. Ali é rica a fauna de aves, como
papagaios, tucanos e pica-paus. Especialmente vistosos são
o pavãozinho do Pará e a cigana. Entre os
mamíferos das copas predominam os marsupiais, os
morcegos, os roedores e os macacos. Os primatas possuem
nichos bem diferenciados. O bugio é diurno e se alimenta
de preferência com folhas. O macaco da noite Aotus
é o único macaco ativo durante a noite. Os
sauins, insetívoros vorazes, possuem várias
espécies e subespécies que se diferenciam
pelo colorido e forma das faces. Ao lado dos polinizadores
clássicos - abelhas, borboletas e aves - os macacos
da Floresta Amazônica têm também um papel
de destaque como polinizadores. As aves, os morcegos e os
macacos frugívoros da mata de terra firme têm
um importante papel de disseminar os frutos e sementes das
árvores.
As espécies
e subespécies de macacos, preguiças, esquilos
e outras são freqüentemente separadas pelos
grandes rios tributários do rio Amazonas. As unidades
biogeográficas formadas pelas bacias destes rios
explicam em parte a grande bioversidade da biota amazônica.
Além disso, podemos sobressaltar áreas de
floresta que serviram de refúgio às várias
populações diferenciadas durante os períodos
de clima árido do passado, acima mencionados, quando
grandes áreas de cerrado fragmentavam a Floresta
Amazônica. Hoje em dia, o desmatamento descontrolado
está fragmentando a floresta de terra firme. Sem
os cuidados necessários, províncias faunísticas
inteiras e antigos centros de especiação correm
o risco de serem obliterados para sempre.
As florestas alagadas
estão ao alcance das enchentes anuais do rio Amazonas
e de seus tributários mais próximos. As flutuações
do nível da água podem chegar a 10 metros
ou mais. De março a setembro, grandes trechos de
floresta ribeirinha são alagados. As plantas e os
animais da floresta alagada amazônica vivem em função
das suas diversas adaptações especiais para
sobreviver durante as enchentes.
As águas
amazônicas possuem características diferentes,
resultantes da geologia das suas bacias fluviais. Os rios
chamados de rios de água branca ou turva, como o
Solimões ou o Madeira, percorrem terras ricas em
minerais e suspensões orgânicas. Os rios chamados
de água preta, como o Negro, oriundos de terras arenosas
pobres em minerais, são transparentes e coloridos
em marrom pelas substâncias húmicas. Existem
também rios de águas claras, como o Tapajós,
que nascem nas áreas dos antigos escudos continentais,
também pobres em minerais e nutrientes.
As matas banhadas
pelas águas brancas costumam ser chamadas de florestas
de várzea e as banhadas pelas águas pretas
e claras, de florestas de igapós. A vegetação
da várzea é muito mais rica do que a vegetação
dos igapós, por causa da fertilidade das águas
brancas e dos solos aluvionais por elas trazidos. O mesmo
se constata com a fauna dos dois tipos de florestas, especialmente
com a biota aquática. Os rios de água branca
são ricos em peixes, enquanto os rios de água
preta são "rios da fome". As áreas
onde os dois tipos de águas se misturam, como a área
perto de Manaus, são consideradas especialmente ricas.
As árvores das matas alagadas têm várias
adaptações morfológicas e fisiológicas
para viverem parcialmente submersas, como raízes
respiratórias e sapopembas. As árvores são
pobres em plantas epífitas e o sub-bosque praticamente
inexiste. Em seu lugar existe uma rica flora herbácea,
como o capim-mori, a canarana e o arroz selvagem. Na estação
das enchentes, o capim se destaca e forma verdadeiras ilhas
flutuantes. Outras plantas flutuantes, tais como a vitória-régia
e o aguapé, também acompanham o nível
das águas.
Os mamíferos
das matas alagadas - antas, capivaras e outros - são
todos bons nadadores. Até as preguiças são
capazes de nadar. A fauna de macacos e de outros mamíferos
arborícolas em geral é pobre, comparada com
a fauna da terra firme. Nos rios de várzea encontram-se,
porém, várias espécies de mamíferos
aquáticos, como os botos, o peixe boi, a ariranha
e as lontras. A fauna de primatas é muito reduzida.
O vegetariano peixe boi e os botos predadores são,
entretanto, muito raros nas águas pretas e claras
dos igapós, pobres em vegetação aquática
e pouco piscosas.
Na avifauna relativamente pobre das florestas de igapós
predominam as aves aquáticas, tais como as garças,
biguás, jaçanãs, mucurungos e patos.
As águas
das florestas alagadas são ricas em répteis
aquáticos. As tartarugas são importantes herbívoros
da vegetação aquática e são
muito caçadas. A tartaruga verdadeira (Podocnemis
expansa) está em perigo de extinção;
a cabeçuda (P. dumeriliana) e a tracajá (P.unifilis)
são também muito apreciadas pelos caçadores.
Os cágados Phrynops são encontrados com mais
freqüência nas corredeiras. Entre os jacarés,
o jacaretinga (Palaeosuchus trigonatus), gênero com
uma única espécie endêmica na Amazônia,
está ameaçado de extinção. O
jacaré-açu (Melanosuchus niger) é o
jacaré comum na área. Vários autores
atribuem aos jacarés predadores um importante papel
de "reguladores" na várzea. A grande jibóia
amazônica merece também ser mencionada.
Na Amazônia
vivem em torno de 10 mil espécies de peixes. Aqui,
mencionamos apenas algumas espécies ligadas à
floresta de inundação. São estas os
peixes frugívoros que evoluíram em estreita
co-evolução com as árvores e arbustos
amazônicos: as frutas caem na água, são
engolidas pelos peixes e as sementes resistentes às
enzimas gástricas são transportadas para longe.
Vários peixes, especialmente os da grande ordem dos
Characinoidea, apresentam dentições especializadas
para certos tipos de frutas. O tambaqui (Collosoma macropomum)
é um comedor especialista das frutas da Hevea spruceana.
Pacus, dos gêneros Mylossoma, Myleus e Broco, são
também comedores importantes de frutas de palmeiras,
embaúbas e outras árvores. A piranheira é
uma planta preferida por algumas espécies de piranhas.
A dispersão das plantas pelos peixes da várzea
e dos igapós tem uma importância comparável
à da dispersão clássica de sementes
pelas aves e mamíferos nas florestas de terra firme.
O tambaqui e os pacus, bem como o pirarucu (Arapaima gigas),
são os peixes de maior importância comercial
na Amazônia. Nada ilustra melhor o papel ecológico
importante da frugivoria dos peixes. O tambaqui é
muito procurado por pescadores turísticos.
Os
peixes frugívoros constituem somente um dos tipos
de peixes na várzea, mas o papel deles é particularmente
importante nas águas pretas e claras. Devido à
pobreza excessiva dessas águas em fito e zooplâncton,
são as árvores que fornecem a maioria dos
alimentos. Mesmo assim, os peixes do rio Negro são
de tamanhos menores do que os seus coespecíficos
no rio Solimões. Os cardumes também são
menores.
A fauna de insetos é principalmente ligada à
vegetação flutuante. As poucas espécies
de cupins e de formigas acompanham a subida e a descida
das águas ao longo dos troncos das árvores.
Vários tipos de insetos vivem sobre a vegetação
flutuante, enquanto nas águas criam-se enormes populações
de mosquitos e outros dipterros irritantes. Os rios de água
preta são isentos deste flagelo.
As matas
alagadas contêm várias espécies de árvores
de utilidade econômica, além de madeiras de
lei. A seringueira, a sorva, a andiouba, a macaranduba,
o buriti e o tiucum produzem borracha, alimentos, óleos,
resinas e fibras de importância econômica. As
várzeas são especialmente ricas e produtivas.
Ali se encontravam as grandes concentrações
indígenas e atualmente são desenvolvidos grandes
projetos agro-pecuários e industriais.
Específicas
dos igapós de solos arenosos e de água preta
são a piranheira (Piranhea trifoliata), a oeirana
(Alchornea castaniifolia), várias espécies
de Inga e de Eugenia, as palmeiras Copaifera martii (copaíba)
e a Leopoldinia. Algumas árvores têm grande
resistência às enchentes prolongadas, tais
como a Myrciaria dubia, a Eugenia inundata (araçá
de igapó) e, finalmente, a Salix humboldtiana, que
sobrevivem a vários anos de submersão permanente.
Muitas espécies da várzea estão ameaçadas
de extinção devido ao rápido desenvolvimento
das áreas urbanas, da construção de
represas, da poluição com o mercúrio
dos garimpos etc. A caça e a pesca desregulada na
várzea já colocaram em risco a existência
de vários vertebrados aquáticos de grande
porte. A lista das espécies em extinção
é encabeçada pelos botos, peixe boi, ariranha,
tartaruga verdadeira, jacaretinga e outros. Entre os peixes
ameaçados destacamos o pirarucu, o maior peixe de
água doce do mundo.
A
alta produtividade da várzea possibilitou uma povoação
indígena densa à época da descoberta.
As margens do grande rio abrigaram muitas aldeias com milhares
de habitantes. A densidade populacional alcançava
14,6 pessoas por quilômetro quadrado. Os ribeirinhos
cultivavam milho e mandioca no rico solo aluvional, coletavam
arroz selvagem e usufruíam de pesca rica. Estes índios
tinham uma organização de classes sociais
e utilizavam trabalho de escravos.
Os
rios de água preta, pelo contrário, considerados
"rios de fome", foram historicamente pouco habitados.
Porém, pela falta de dípteros molestadores,
como mosquitos, borrachudos e mutucas, os novos colonizadores
preferiam morar nas margens dos rios de água preta.
Por um curto período, a capital da região
foi para Barcelos, no médio rio Negro, mas mudou
rapidamente para Manaus, perto da várzea rica em
peixes. Ainda é preciso considerar que os solos férteis
na Amazônia são os solos de várzea,
justamente onde os grandes centros urbanos tendem a se localizar,
junto com as suas bases de abastecimento.
Uma
estação ecológica está situada
por inteiro no ambiente dos igapós: é a Estação
Ecológica Federal do arquipélago de Anavilhanas,
no baixo rio Negro. Nas enchentes, o arquipélago
de centenas de ilhas é praticamente submerso. O laboratório
de pesquisa da Estação fica em casas flutuantes
que acompanham também o nível das águas.
Uma outra estação, Mamirauá, está
situada na várzea, perto de Tefé. O grande
centro de pesquisas da Amazônia (INPA), em Manaus,
e o Museu Goeldi, em Belém, mantêm várias
reservas e áreas de pesquisa nas matas de terra firme.
Em Santarém encontra-se um grande centro de pesquisas
piscívoras.